O Ditirambo Morreu.



Depois de alguns anos procrastinando, avisamos, para felicidade de nossos cinco leitores, que o Ditirambo está morto. 

Em breve este espaço será reformulado para psicografar mensagens de blogs associados e outros espíritos livres. 

Mais uma vez agradecemos a atenção e a paciência de todos os nossos três queridos leitores.

Evoé!

16:45

Este é o início de uma lapso temporal em seu dia. Comece a notar, todos os dias quando o relógio do computador alcançar 16:45 pode ter certeza que amanhã chega, mas 18h não. É o lazy down da rotina. Certeza que quando o fim do mundo chegar, será às 16h45. O sol está deixando de ser forte para ficar mais fraco. Em tempos de chuva é quando o temporal é mais forte. Faz o teste! O céu escure e parece que 19h chegou, mas é só mais uma facepalm que o tempo dá em todo mundo.

Se está no trabalho, nada acontece. Nem o telefone toca. Toda a força criativa escorre de você, para a cadeira e vai ao chão como azeite caindo do pão (a rima foi involuntária). O sono, enlouquecedor, lhe mostra toda a força de vontade que você esqueceu em algum lugar, menos aqui. As 345 coisas que você estava fazendo passam a não ter tanta urgência assim. E, qualquer link, digo QUALQUER link passa a te içar como um tucunaré que está pronto para a rede-limpeza-chapa-estômago. Finalmente as 18h chegam, os posts no facebook e twitter vão diminuindo, os posts sobre o trânsito vão crescendo, mas você só sai às 19h. Então, todas as coisas deixadas para depois passam a ser feitas na velocidade da luz. 15 emails respostas em menos de cinco minutos. O teclado passa a ter sonoridade de um piano em fúria, dada a situação das teclas já demasiadamente amolecidas pelos toques frenéticos do rush time. Na maioria das vezes não dá tempo, então você acaba esticando até às 20h só para ter certeza que tudo ficará em ordem para o dia seguinte. E seguinte. E seguinte.

Mas você não trabalha. Está em casa. Puxou a poltrona para perto da estante só para colocar o pé em cima do braço do sofá. Mais conforto para a fase 5, nível três. Malditos helicópteros e mini-kits im-pos-sí-veis de encontrar. Já passou a hora do almoço, mas você preferiu a novela. Ainda não é jantar, mas você não lanchou. Então, o pacote de snakes fica de um lado e o brut do outro, só para relaxar. Mas são 16:45, quando todo o dia que quase está acabando passa a fazer algum sentido. O que eu fiz do meu dia, porque ele está QUASE no fim? Por que eu não saí de casa? Por que não comi cachorro-quente na igrejinha? E o almoço com azamiga, ficou para depois? POR QUE?!!?!!? Facepalm. São 01h45 de pura procrastinação estúpida pela falta de tempo perdido. Vou colocar tudo no twitter e dizer que a classemédiasofre.

Quando 16h45 chegar, já sabe, dá uma autistada e finja ser 15h45. Vamos ver no que vai dar.

Cronica da Semana: O Adulto


O que significa ser adulto?
Quando éramos todos muito pequenos, nossos pais eram adultos. Ambos trabalhavam (emancipação das mamães 80's time!) e ponto. Havia uma renda familiar a ser preservada, mas nada muito além disso. Minha mãe usava tailleur e meu pai... Bem, meu pai usava papete com calça social, mas isso não vem ao caso.

A grande questão que quero apontar é que hoje os valores (quais?) mudaram.

Minima Moralia VII


E quando eu te pegava pelo cabelo isso realmente me dava tesão. Não na cama, isso era normal, mas, por Deus!, quando eu te levava até à esquina assim e você me xingando e todo mundo olhando. Eu me sentia bem com isso. Não que você gostasse de apanhar, mas eu realmente gostava de bater.

Um dia de sol


Um feriado no meio da semana requer ações fora do comum. Acordar tarde, passear com o cachorro, ver os amigos e tomar uma cervejinha. Tudo isso sem esquecer que no dia seguinte tem trampo. Um domingão com cara de quarta-feira, ih delícia. De certo que passei os últimos 27 anos encarando o primeiro feriado de novembro com cara de mais um domingo no meio da minha semana, mas desta vez foi um tanto diferente. Estranho até, pois não tenho mortes em parentes diretos. Não participo da rotina funerária. Chega até ser bizarro, pois meus únicos parentes mortos diretos estão há mais de 500 km.

Voltas Catalanas V - Cigarro de Palha

Cigarro de Palha
por Eustáquio Arantes di Maria

É a rebelião das massas, agora bêbadas e sorridentes. O próprio ato de se autodestruir e levar uma conduta chocante e imoral, antes reservado aos espíritos mais avançados de uma época, está agora ao alcance de todos. Todos são descrentes, hedonistas e depravados, embora amem a família, louvem a moral e acreditem em Deus.

O único jeito de eu me sentir algo mais que uma rês no meio desse rebanho é seguir o caminho contrário, segundo esse método infalível que me tem orientado ao longo da vida: se tem muita gente indo para um lado, vá para o outro, imediatamente (exceto, talvez, em caso de incêndio). É por isso que, depois de uma adolescência promissora, me desencantei por completo do consumo de drogas e sobretudo de álcool (acho que até as vovós hoje bebem cerveja e, pior, adoram propaganda de cerveja). Só o cigarro aparentemente guardou algo de sua pureza e de seu potencial disruptivo. Aliás, esta droga fez o caminho contrário ao que o álcool vem fazendo, pois o tabaco passou de símbolo máximo do status quo a hábito repulsivo e atrasado de gente sem força de vontade.

Goiânia Blues VI - ...ad centrum (Parte I).

...ad centrum. (Parte I)
por Mário Zeidler Filho

Dia desses – ontem, anteontem, semana passada – voltava eu pela rua 03 de um sarau literário, ou pior: de  um “sarau libertário”, e por conseqüência trazia amarrado às costas todo o tédio do mundo.  Apesar do gim, e com exceção de uma ou outra inevitável lorota cabeluda, eu havia me comportado decentemente durante todo o sarau e até mesmo na esticada com a poetaria num boteco próximo.  Agüentei com paciência exemplar os tapinhas nas costas, os cigarros filados, as lamúrias, as sensibilidades, e até os “poemas vampíricos”. Naturalmente, enquanto caminhava pela rua, com um cachorro vagabundo ainda imaginário me mordendo a barra da calça e sem nem mesmo o número do telefone de alguma vênus versilúbrica no bolso, minha vontade era de quebrar uma vidraça, chutar lata de lixo como o moleque punk que eu nunca realmente cheguei a ser. Passando pelo muro branco dum banco e resolvi pichar, inspirado no Ricardinho Rimbaud-Maria-Rilke-Ponte-Grande-Baudelério de Mello do Reinaldo Moraes: “todo anjo é um filho da puta”. Mas não. Parei no Bate Papo pruma saideira.

Auto-Retrato e Poesia Menoríssima de Marciano Machado

Aproveitamos o momento de "retorno aos trabalhos" do Ditirambo Zine para apresentar Marciano Machado, nosso novo colaborador. Mais novidades em breve. Aproveitem a leitura. Evoé.



Self-portrait em aquarela escocesa (sem gelo)


 – Marciano Mateiro Machado D’Armadas, Filho, muito embora do pai só tenha ficado a confluência de emes e um comentário de cheiro (alcatrão), cavanhaque ralo e uns bigodes de general: “De General! De GE-NE-RAL!”, suspirava Dona Carola, mamãe, abanando c’oas mãos o rosto afogueado. De mamãe também ficou pouco: uma mudança de cores que vai do luso ao turcomano (ou qualquer outra coisa que por lá se tenha cuspido) e um gosto fora de moda por sambas fora de moda. Sotaque de russo bêbado variando ao sabor da vodca – um turgeniev canalha, compungidos dostoiéviskis, tolstóis alucinados. Deixei de beber vodca. Marciano Machado, Marcico pros amigos, que dos outros não aceito piada de nome, afinal, em bigodes, sou filho de general. Tenho um par de olhos azuis que carrego no bolso do paletó para impressionar as garotas, e numa noite de terça-feira gorda já me chamei Maricota, sua criada, muito prazer.

Sociedade Inconformada



Está tudo certo. Este mundo é muito certo. Não fume, mas se o fizer faça-o longe de todos, o vício é mais demodê que a própria palavra. É proibido falar alto, incomodar os vizinhos, inclusive no trânsito. E por falar em rodas, não fume ao volante, não jogue bituca na rua, pode provocar queimadas. Não dê esmola, mas entregue tudo que tem para os flanelinhas. Eles podem estragar seu carro. Não corra, de carro ou a pé, de bicicleta ou de patins, alguém pode se machucar. As crianças, por exemplo, não podem nascer. Fazem barulho, irritam. São umas gracinhas para os mais velhos, e apenas. Se seus amigos não querem ter filhos, então para que você terá? Filhos prejudicam suas chances de emprego, seu chefe acha estranho suas saídas ao médico, por conta da gripe de Antônio.

Ditirambo Especial: Feliz Bloomsday


O que você fez nas últimas dezoito horas? Você acha que é possível viver uma vida nesse tempo? Sentir todas as emoções do mundo em um dia? Será possível juntar toda uma vida, com morte, nascimento, solidão, alegria, rejeição, traição, prazer, em tão poucas horas? Tudo que um ser humano sente? É possível entrar na cabeça de alguém, adivinhar e seguir o que ele pensa?

Depois de Ulisses, acho que sim.